BLOG DE ATUALIDADES, CIDADANIA, FILOSOFIA E CIÊNCIA.

Este blog pretende instigar sua inteligência.
Pensar é contemporâneo. Compartilhar, estar atento ao que se passa em nosso
tempo. Concordar e discordar. Provocar. Discutir os mais diferentes assuntos,
desde que relevantes para nossa cidadania e nosso crescimento pessoal. Esse é o
propósito



terça-feira

A CHEGADA, UMA TENTATIVA DE INTERPRETAÇÃO INICIAL

A  CHEGADA : UMA TENTATIVA DE INTERPRETAÇÃO INICIAL

Primeiro ato de “A Chegada”, o mais enigmático filme dos últimos tempos: alienígenas desembarcam na terra em 12 naves, cada uma pousa em um país diferente. A professora de línguas Louise Banks chega à sua sala da faculdade onde encontra apenas uns poucos alunos, e pergunta:
- Onde está todo mundo?
Os aficcionados da astronomia sabem que é uma metáfora do Paradoxo de Fermi(onde está todo mundo se refere a onde estão os seres dos outros planetas que nunca aparecem).  Na prática o que havia acontecido é que os alunos faltaram à aula por já saberem da invasão alienígena e pela cidade estar cercada de policiais e helicópteros anunciando o fim do mundo.
Ao longo do filme, vamos nos dando conta de que não estamos assistindo ao Independence Day, mas a uma imersão num mar de questões fundamentais  : o que é a comunicação? Qual o seu limite? Quais os nossos preconceitos em relação ao novo e como lidamos com o novo? Existe vida após a morte, o que é a morte? O que é uma língua, como são fundadas e fundamentadas as línguas, quais os seus papéis? O que é o tempo, o que é o espaço? O que é ser humano qual o limite de ser humano, etc.?
Nossa capacidade de construir o conceito de vida e de ser capaz de comunicar com outras vidas é limitado. Ao imaginarmos os seres de outros planetas sempre os supomos falando como nós, usando palavras como formas de expressão, ou sendo construídos de músculos e ossos. Mas e se não for assim? E se houver códigos genéticos não relacionados ao DNA, se as formas de vida e expressão forem tão diferentes que não conseguíssemos definí-las como vida, tal qual a conceituamos? Por exemplo, Darwin escreveu um livro  chamado “A expressão das emoções no homem e nos animais”,  no qual se debruçou em entender a linguagem animal através de observação rigorosa de sons, movimentos, expressões corporais e faciais, etc., comparadas às expressões humanas, só para dar uma visão supercial do que é a idéia do livro. Mais tarde o mesmo Darwin escreveu um outro livro chamado “ O poder do movimento nas plantas”, em que buscava entender a inteligência das plantas. Ele não quis dar o nome ao livro de A Inteligência das Plantas, ele vivia numa época em que não se podia dizer certas coisas, quem sabe o internariam no hospício, mas era o que ele estava descobrindo: que as plantas se comunicam, têm sensações, cognição, sistemas complexos de comunicação, etc... E se formos fazendo assim sucessivamente até encontrarmos a forma de nos comunicarmos totalmente com as formigas, as abelhas, os elefantes, as bananeiras? Eu tenho um amigo que entende bem a linguagem das bananeiras, se querem saber e acreditar.
Bem, uma das mensagens explícitas de Louise é: a língua que você fala modula a sua forma de pensar. Se você fizer imersão em outra língua seu cérebro será reprogramado, a língua que você fala determina sua forma de pensar.....mas vamos transformar língua em linguagem...nova linguagem, nova programação. A programação pode incluir desde a decifração de enigmas da vida até uma mudança no tempo e no espaço. Cada nova reprogramação pode se constituir em uma mudança genética, ou uma ascenção de nível de conhecimento, de espiritualidade.
Não, o filme não é somente sobre isto. Isto é apenas o começo do filme. Isto é apenas um pequenino grão de areia do universo em que ele nos introduz. Espero conseguir escrever mais sobre ele, sobre mais alguns aspectos dele. Como o filme também não segue o trajeto linear dos habituais , tendemos a ficar confusos , pois a toda hora temos que ir e voltar, o filme é um palíndromo, como é o nome da filha de Louise, a menina que se chama Hanah...de de frente para trás e de trás pra frente o mesmo nome...símbolo do tempo não linear....a linguagem dos alienígenas é em círculos e não usa palavras mas prováveis símbolos(pelo menos é assim como eles a interpretam), os símbolos remetem a sensações(algo parecido com a língua japonesa e chinesa), no filme os chineses tentaram se comunicar com os alienígenas através de jogos que os ocidentais interpretaram como uma forma de estabelecer uma relação determinada por vencer ou perder, mas jogos são simbólicos, forma de linguagem que os ocidentais não entendem.
Para terminar esta primeira tentativa de interpretaçao do filme, lembrei-me da história de Leonard Cohen. Fiquei emocionado de vê-lo contar. É mais ou menos assim.
Ele morava em Montreal nas imediações de um parque, onde caminhava sempre. Ele já era um poeta e músico famoso. Um certo dia, andando pelo parque, viu um rapaz tocando violão e tentando ganhar o dinheiro que punham no chapéu à sua frente. Ao passar pelo rapaz Leonard se impressionou com a destreza e a maravilha com que o rapaz tocava o violão flamenco. O rapaz era espanhol. Leonard parou e pediu para o espanholzinho o ensinasse  a tocar aquelas músicas, com as quais estava fascinado. Diante a resistência do moço, Leonard foi embora, mas todo dia voltava pra escutá-lo e dar alguns trocados. Tanto insistiu que o violonista do parque aceitou dar aulas de flamenco ao poeta. Na casa de Leonard(o rapaz não sabia quem era o poeta e músico) o rapaz pediu a ao dono que tocasse algo. Quando Leonard tocou a primeira música o rapaz falou: o senhor toca muito mal, não vou ensinar nada, vai demorar muito. Mesmo assim ele insistiu e as aulas começaram. Após uns poucos meses o rapaz sumiu. Leonard saiu à procura do jovem mas não o encontrou no parque. Um outro jovem que tocava no parque indicou-lhe que o moço que procurava morava em uma pensão próxima, e Leonard foi até lá . Foi então que ficou sabendo. O rapaz havia se suicidado.
A dimensão daquele fato inundou a vida de LeonardConhen  e mudou toda a sua forma de se relacionar com  o mundo daí em diante, segundo ele disse, milhares de vezes. Quantas armadilhas existem na comunicação, quantos tipos de linguagem usamos para nos comunicar, quão cegos ou atentos estamos para ver o que está em nossa frente?
Um amigo meu, gaúcho, disse-me certa vez que já tinha esgotado todas as possibilidades de ler Guimarães Rosa, mas não conseguia prosseguir na leitura, era muito dificil.  Eu entendi perfeitamente. Eu disse a ele que para ler Guimarães Rosa e entender seu planeta Sertão era preciso uma sequência. Teríamos que começar com Sagarana, uma iniciação ao código roseano, aos símbolos dos sertanejos, ao universo deles, aos seus valores e regras. No Grande Sertões penetramos propriamente na linguagem, no idioma sertanês, mesmo assim é preciso ler talvez a metade até estar totalmente por dentro de tudo. Uma vez avançado nesse ato podemos ascender ao No Urupuquáquá no Pinhém.
A Chegada percorre esse caminho de conhecimento de uma nova comunicação com o “outro” , o desconhecido, o perigoso(viver é muito perigoso, lembram-se?).  Primeiro a distância regulamentar, depois ela consegue avançar e tirar a roupa de proteção contra radiação e bactérias(como se as houvessem de antemão), significado de ser ela mesma, tirar a máscara, depois tocar o “vidro” de proteção que os alienígenas colocaram entre o mundo deles(segundo estágio de aproximação) e o nosso(nessa parte lembrei-me do poema de Henriqueta Lisboa O Véu( os mortos estão deitados/e têm sobre o rosto um véu/um tênue véu sobre o rosto..........Entre a vida e a morte, um véu/nada mais do que um véu)...entre o nosso mundo e os outros haveria nada mais do que um véu? Um véu que parece um vidro?
Quando Louise faz o contato verdadeiro, mãos sobre as patas do alienígena e sente profundamente o contato, então o véu vidro se rompe ela é admitida ao lado de dentro do vidro véu e é uma luz profunda intensa o entendimento a conexão entre os mundos interiores, desconhecidos, a troca verdadeira).
Através desta entrega total de Louise ao alienígena dá-se a entrega total do alienígena a Louise, os mundos se encontram, e esse mundo é um só, o que os une ou separa é uma estranha idéia de tempo.
Enfim os dois alienígenas eram, ou restauram, com seu único poder superior ao nosso, a filha e o ex-marido de Louíse? Quando Louise adentrou ao mundo deles seus seres amados se reencarnaram ? O tempo circular, a linguagem circular, o símbolo circular, o palíndromo, HANAH.
Louise descobre que o que os alienígenas queriam nos dar era a sua linguagem.

Voltando à realidade,  estou agora em casa preparando-me para ler o conto que deu origem ao filme,  o conto chama-se História de sua vida , mas me dou conta de que ao lê-lo em português estarei já com um vidro entre meu pensamento e o dele, Ted Chiang, o autor, e se o ler em Inglês, a língua original do autor, que também é chinês, acontecerá o mesmo, a língua que você fala determina sua forma de pensar, não haverá como saber realmente o que ele escreve e sim uma visão limitada por uma tela intrometida entre três línguas.



sábado

JULIO CORTÁZAR E TOM JOBIM X A NATUREZA

MEDITAÇÕES ECOLÓGICAS DE JULIO CORTÁZAR(LUCAS)
Na pele de Lucas, Cortázar(alguém pode explicar-me esse maldito acento agudo no a do idioma espanhol?) sustenta que intelectuais e natureza não combinam. Lembro-me de uma história envolvendo nosso grande Tom Jobim e seu fotógrafo americano. O último queria bater uma foto do penúltimo na praia de Ipanema. Tom Jobim se recusou. O retratista insistiu:- mas sua música se chama garota de Ipanema, os fãs gostariam de vê-lo na praia.
Ao que Tom respondera:
-Meu amigo, intelectuais não vão à praia. Intelectuais bebem. Eu bebo em frente à praia fico olhando as garotaisxxxx passarem. Pode fazer uma foto minha no bar meisxmo  Tom Jobim não gostava da praia, mas do campo sim. Tinha um belo sítio. Reza a lenda que um dia os fãs invadiram o sítio em busca de Frank Sinatra, que estaria escondido lá. Só acharam o paletó dele. O povo aumenta, mas não inventa.
Já Cortázar(ou um tal Lucas) citando um  Max Jacob, respondendo a um convite para passar o fim de semana no campo, exclamara:
- o campo, esse lugar onde os frangos passeiam crus!?
Nosso mestre do conto concluiu:
Uma paisagem, um passeio no bosque, um mergulho numa cachoeira, uma caminho entre as pedras só podem nos preencher esteticamente se temos a garantia do regresso à casa ou ao hotel, ao banho lustral, o jantar e o vinho, a conversa à mesa, o livro ou os papéis, o erotismo que tudo resume e recomeça.
Para o tal Lucas...no campo...tudo parece consistir em ficar repetidas vezes estupidificado diante de um morro ou de um pôr do sol que são as coisas mais repetidas que se podem imaginar.
E para terminar, disse o tal Lucas Cortázar:
-Desconfie, tchê, da contemplação absorta de uma tulipa quando o contemplador é um intelectual. o que há ali é tulipa+distração, ou tulipa=meditação(quase nunca sobre a tulipa).
Para ir direto à fonte do argentino compre(e saboreie) Um Tal Lucas,Civilização Brasileira, RJ, 2014.
Só para me contrariar, meu amigo e fotógrafo Ronaldo Almeida enviou-me fotos de Tom Jobim na praia. O, literalmente, Brasileiro, estava muito bem vestido, por isso retruquei que ele apenas deu um pulinho do bar para bater a foto, a contragosto, suponho.

segunda-feira

CURSO SOBRE CONHECIMENTO E ATENDIMENTO INTERDISCIPLINAR DOS TRANSTORNOS DA SEXUALIDADE HUMANA.

CURSO SOBRE CONHECIMENTO E ATENDIMENTO INTERDISCIPLINAR DOS TRANSTORNOS DA SEXUALIDADE HUMANA.

Nos próximos dias 16, 17,18 de setembro, estarei coordenando o curso acima na faculdade de Ciências Médicas, onde leciono. O curso é destinado a alunos e graduados das áreas de saúde e humanas, e será dado por mim e outros professores destas diferentes áreas, especialistas em sexualidade humana.
Para saber mais sobre o curso e se inscrever, entre no link abaixo, da faculdade

(http://www.cmmg.edu.br/cursos/conhecimento-e-atendimento-interdisciplinar-em-sexualidade-humana-e-seus-transtornos/).

sábado

EXPLICANDO OS POEMAS DE MEU LIVRO KALA


Certa vez organizei, junto a uma amiga psicanalista, uma oficina sobre psicologia dos contos de fadas. O que mais nos surpreendeu foi que, no grupo composto por médicos e psicólogos, havia sempre aqueles e aquelas(principalmente aquelas), que ficam com muita raiva de nós dois por desmascarar a fantasia dos contos de fadas. Eles(elas) diziam: e agora? Nunca mais vou ler uma história infantil da mesma forma.
Há coisas que não se explicam. Poesia é uma delas. Se o autor explicar uma poesia, irão lê-la com uma interpretação única, e o grande barato da poesia (que é fazer com que fosse cada um de nós o que a tenha escrito, pois ela fala de coisas íntimas com as quais o leitor irá se identificar) vai por água abaixo.
Por outro lado, sempre ficamos muito curiosos por saber quais foram as fontes do poeta, o que o levou a escrever exatamente aquilo. Esse tipo de "roteiro" de leitura eu acho importante e sempre me fascina ler ensaios sobre poesia, porque os ensaístas sempre procuram por esse roteiro secreto.
O que quero fazer aqui é exatamente trazer esse roteiro para uma leitura mais interessante dos meus poemas. Também porque muita gente anda pedindo para eu fazer isso.
Então vamos lá. Meu livro de poesias se chama KALA( que em sânscrito quer dizer O TEMPO), e se divide em capítulos das várias fases da vida. No primeiro capítulo escrevi poemas de minha infância e do tempo em que vivi em minha pequena cidade, Guarani, que fica na zona da mata mineira,.
Um dos poemas do capítulo citado é PINTO NA COZINHA. Aqui vai o seu roteiro.

Minha casa era separada da de meus avós paternos por um quintal, que na verdade era um lote vago. Nesse lote vago meu avô criava galinhas e porcos. Minha infância transcorria entre a porta da cozinha de minha casa e a porta da cozinha de minha avó. Como os dois portões ficavam sempre abertos, as galinhas e ospintos transitavam comigo entre as cozinhas. Os porcos ficavam presos na parte superior do lote, mesmo local onde, mensalmente, para meu terror infantil, um deles era assassinado. Um dos locais mais marcantes de minha infância interiorana foi, sem dúvida, a cozinha de minha avó. Enquanto minha mãe sempre tinha empregadas, que invariavelmente nos expulsavam da cozinha, e também porque nossa cozinha só tinha fogão "a gaz"(um dia ainda explico sobre o fogão a gaz de antigamente) a cozinha de minha avó só tinha fogão "de lenha", o objeto mais fascinante que pode haver numa cozinha mineira, não só pelo tipo de comida que se faz nele, mas por todo seu emblemático poder de reunir pessoas em volta dele e produzir conversas interessantes.
Mas o personagem principal de meu poema, o pinto, quase passava despercebido. Minha avó proibia as galinhas de entrarem mais "prá dentro" da cozinha, mas os pintos tinham essa liberdade. Então, enquanto a gente conversava, esquentava fogo, esperava o biscoitinho de nata que ia sair do forno, ou o fejãozinho preto, ou mesmo a couve refogada, ali estavam eles sempre a passear entre as nossas pernas, bicando tudo o caía no chão. É impossível recordar a cozinha de minha avó sem a presença dos pintos, piando e bicando, piando e bicando, às vezes dando gritinhos quando nós os pisávamos por descuido. Então:

           PINTO NA COZINHA

Pinto, na cozinha,
mudo, circunspecto,
bica, espia ereto,
intocado aos pios.

Fogão de lenha:brasa.
Roupa quarando no tanque.
Preta bate bife.
Avó coa café.

Pinto forma plataforma,
abre os dedos em leque,
filosofa, espera o resto,
come sem trégua. Observa.

Avó corrige menino,
menino esfrega empregada,
empregada espirra azeite,
ovo estrala e bolo engorda.

Pinto faxina seu chão:
bica, corre, bica, empaca.
Vez em quando o olho mexe
e ao ver-me, vendo-o, caga.

Coador coa vigiado.
Ecoa minha vó minha vida.
O angu minha língua espreita,
feijão minha alma anseia.

O pinto solta penas,
de mim pinto não tem pena.
O pinto não me condena,
pois o pinto é pinto apenas.

O figo me espera sôfrego.
A vida é alada, é fada,
cozida nessa galinhada
(pinto e avó) predestinada.


Para quem quiser adquirir meu livro Kala, ele encontra-se à venda na Livraria Asa de Papel e na Cooperatora Editora Médica, em Belo Horizonte, e no Bar da Sheila, em Guarani.