Pular para o conteúdo principal

Postagens

AS MIL LEITURAS DE SHAKESPEARE 2- HAMLET

AS MIL LEITURAS DE SHAKESPEARE 2- HAMLET Muito antes da série Shakespeare Uncovered as questões sobre as várias peças dentro da peça principal em Shakespeare já me emocionavam. Agora revejo o episódio 6 da série, que é sobre Hamlet. É sensacional ver os atores que interpretaram Hamlet em épocas diferentes  trocarem ideia sobre o personagem, e, mais ainda, sobre eles mesmos depois de terem vivido Hamlet.   A história de Hamlet é, no sentido mais profundo, a  do "luto", a  da vivência da morte, e mais além, a reflexão que a perda de um ente querido nos impõe sobre o sentido da vida. Mas no caso específico de nosso príncipe, é um luto muito maior porque ele percebe que só ele está passando a sensação intensa de perda, enquanto todos os outros, inclusive sua mãe, superaram muito rápido a morte do Rei, pai de Hamlet. Isso nos remete, talvez, à experiência única que é a perda de um pai, ou de uma mãe, ou de um filho. Por mais que os outros nos consolem, por mais qu...

AS MIL LEITURAS DE SHAKESPEARE

Ler Shakespeare, quantas vezes quisermos, será sempre uma aventura renovada. Isso porque há nele muitas histórias reunidas em uma supostamente única. A primeira poderá ser a de uma história policial, tipo suspense, a segunda poderá ser uma história de romance, a terceira uma história dramática, e assim sucessivamente. Mas o que eu mais gosto mesmo é de buscar o núcleo, o fundamento principal da trama shakespeareana. É claro, aquilo que eu penso que seja o núcleo, porque se outra pessoa o fizer achará outra coisa.. Exemplifico. Em Hamlet, acho que o núcleo do núcleo é a execração pública dos vassalos, de todos os que babam no rei. Hamlet, em sua loucura sã(como dizia Fernando Pessoa: sem a loucura, o que seria o homem, mais do que a besta sadia, cadáver adiado que procria) odeia todos os covardes e principalmente os covardes que se ajoelham aos poderosos. Isso foi tão forte para mim, na leitura de Hamlet, e é ainda, que esta representação mudou minha vida. Ele não tem dó de todos os q...

TODOS OS SÁBADOS DEVERIAM SER OÁSIS

Sábado é o dia em que eu deveria acordar tarde, porque nos dias úteis tenho que trabalhar bem cedo. Minha mulher reclama que sempre a desperto antes da hora. Ela gosta de dormir até as dez e mesmo que eu tente levantar-me na ponta dos pés, nem usar sapatos antes de sair, não consigo fazer com que não se vire na cama e abra os olhos, interrogativa.  Definitivamente, acordar cedo é minha sina, mas esse hábito tem suas vantagens. Em geral entre cinco e seis da manhã é um instante silencioso, já que as porteiras do povo-gado em geral se abrem às sete. Posso ler um livro sossegadamente, observar o sol nascendo, refletir um pouco, ou mesmo fazer o mais secreto de meus afazeres: admirar minha mulher dormindo seu sono  de ninfa. Mas por que estou iniciando esta história assim, se não é nada disso que quero escrever? Sei lá.                 Neste sábado, como sempre, já estava de pé às cinco, fui à pa...

NO DESCOMEÇO ERA O VERBO

Quem não conhece a célebre acepção bíblica " No começo era o verbo"(João 1,1)? Esta frase é uma das mais enigmáticas do livro sagrado, e como interpretá-la? Na bíblia que tenho em casa(Paulus,1990 edição Pastoral) há um comentário com a seguinte inscrição, logo abaixo do prólogo ao evangelho de São João, que começa com a frase acima( minha bíblia está escrito como " no começo a Palavra já existia". "No começo, antes da criação, o Filho de Deus já existia em Deus, voltado para o Pai: estava em Deus, como a Expressão de Deus, eterna e invisível. O filho é a Imagem do Pai, e o Pai se vê totalmente no Filho, ambos num eterno diálogo e mútua comunicação............Jesus, Palavra de Deus, é a luz que ilumina a consciência de todo homem.......para isso a Palavra se fez homem e veio à sua própria casa, neste seu mundo........A humanidade já não está condenada a caminhar cegamente, guiando-se por pequenas luzes no meio das trevas, por pequenas manifestações de D...

A CORRUPÇÃO NOSSA DE CADA DIA

       Sexta -feira à noite é dia de encontrar os amigos no bar. Lá estamos a discutir a vitória do Galo na final da Libertadores, o Futebol, a Política, o Papa no Brasil, as Manifestações, hora de colocar os papos em dia e, claro, tomar todas. Comecemos pelo Futebol. A discussão caminha pelo coibir ou não a catimba no futebol. Aliás, um site argentino traduziu catimba para o espanhol como sendo “ uma palavra que o brasileiro usa para falar mal do futebol argentino”. A coisa vai por aí : como fazer com que o time adversário não pare o jogo a toda hora? Como impedir que o jogador que está ganhando faça cera? Eu argumento que nos outros esportes isso já foi resolvido com o cronômetro oficial, o tira-teima, etc, mas eles argumentam que isso tiraria a “graça” do futebol...Eu argumento que a graça do esporte e´o próprio esporte e não a “catimba”...Eles relembram o gol de mão de Maradona na copa do mundo...eu lembro a eles que o jogado...

O DOM DE DOM CASMURRO

Pela vigésima vez acabo de ler Dom Casmurro, para mim o maior romance da língua portuguesa. Por que um livro tão simples, com uma história tão banal, consegue ser tão genial e tão profundo? É que estamos falando do "Bruxo do Cosme Velho", o que trabalha com precisão cirúrgica. Vamos pensar sobre a época em que viveu Machado: preconceituosa,  hipócrita. Tão bem retratada por seu contemporâneo José de Alencar no "Senhora". O bruxo, porém, é bem mais sutil que Alencar. Filho de escravo e oriundo das classes inferiores, vivia na corte, não podia afrontar bater cabeça com a elite, e ascendia a ela. Seu método era metafórico, , meio samurai. Dom Casmurro é um romance de duas partes. A primeira parte relata o drama de Bentinho entre o amor possessivo de Capitu e a promessa da mãe em fazê-lo padre. Aí se vê a primeira facada de Machado na sociedade. Na sombra de narrar o drama da mãe em desejar humildemente o melhor para o filho( o seminário) e o sofrimento de Bentinho p...

ASSIM FALOU O PROFETA FERREIRA GULLAR

No dia quinze de fevereiro último caiu, ou melhor, voou sobre a terra uma bola de fogo , um meteoro que deixou rastro de destruição e pasmou a humanidade. O poeta Ferreira Gullar já o havia previsto, como está  na sua obra prima "Em alguma parte alguma". Leiam o poema :    INIMIGO OCULTO              Ferreira Gullar dizem que     em algum ponto do cosmos   ( le silence éternel de ces espaces infinis m'effraie )       um pedaço negro de rocha - do tamanho de uma cidade-   voa em nossa direção perdido em meio a muitos milhares de asteroides impelido pelas curvaturas do     espaço-tempo extraviado entre órbitas   e campos magnéticos                           voa em nossa direção e quaisquer que sejam os desvios         e extravios         de seu curso  ...